Empresário? Ou sofredor? A pior profissão do Brasil!? - Rudilvam de Souza Gomes (*)

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 Rudilvam de Souza Gomes (*)

 

 Em minha carreira, como Auditor Independente, sempre me perguntei, a vida toda, porque tantas pessoas teimosas abrem e fecham tantas empresas, todos os dias, tornando-se empresárias, até mesmo fazendo várias tentativas sucessivas frustradas anos a fio.

 

 É bem verdade que para que tudo se encaixe, no verbete e na prática do economês, é necessária a existência do empresário sem o qual irá faltar a engrenagem que dispõe tanto dos serviços quanto do produto e, claro, por isso mesmo, sempre que aplico as técnicas e procedimentos de auditoria, constato cada vez mais a necessidade, e que não poderia ser diferente, dessa figura tão importante no processo econômico e de crescimento das nações, comunidades, etc.

 

 Mas minha profissão, não diferentemente da do empresário, é recheada de diversidades e, de quando em quando os poderes públicos constituídos nos seus vários órgãos de representação e de interesses do governo, sejam tributários, comerciais, ou de classe, inventam alterar os rumos das coisas e, criam novos modelos, aos quais, ao auditor basta apenas examinar, analisar e expressar sua opinião acerca da aplicação e da qualidade dessa aplicação pelos empresários em seus negócios, gerando assim o Parecer do Auditor Independente. Naturalmente que, para se chegar nesse parecer, são (foram) criados uma série de procedimentos que, via de regra dão certo, sob determinados pressupostos, permitindo assim ao auditor chegar àquelas conclusões técnicas, tendo ou não lucro a empresa alvo da auditoria.  

 

 Mas ao empresário não. Não é assim. Diga-me alguém: onde é que existe um curso que trate especificamente da profissão de empresário? Poderíamos dizer que o mais perto disso seria o Administrador de Empresas, mas nem esse é um empresário, senão que apenas um acadêmico, cujo diploma não tem valor senão em termos teóricos, pois que, nem todo administrador de empresas certificado na academia vira de fato empresário, e o que se vê nesta profissão é que a grande maioria dos formados não consegue mesmo nem se colocar num cargo com essa denominação, pelo menos isso é um fato real aqui no Brasil. Afinal aonde se contrata um administrador de empresas para ser empresário? Falo isso com todo respeito que merece a classe dos adm inistradores de empresas, pois entendo mesmo que jamais serão contratados por qualquer empresa com o cargo de empresário.

 

 Poder-se-ia esperar que todo candidato a empresário tivesse a preocupação de antes de iniciar seu negócio de cursar o referido curso acadêmico e, daí se lançaria à carreira de empresário com a formação de administrador de empresas, mas quem efetivamente faz assim? Também no momento que você é contratado na qualidade de empregado, deixou de ser empresário para ser, obviamente, empregado... Então não haverá de se ver (jamais!?) um Administrador de Empresas devidamente diplomado, quando empregado, com o cargo de empresário.

 

 Mas, retomando o objetivo contextual, o empresário é uma pessoa, simples, do povo, que ambiciona, praticamente quase sempre, montar um pequeno negócio para, no início, apenas poder pagar seu investimento e dar-lhe um meio de sobrevivência, não raro, sua e de sua família (obviamente estou falando do empreendedor iniciante de hoje, pois o de ontem, que se tornou um grande empresário atualmente, já não tem as mesmas dificuldades, mas outras, algumas das quais aqui relacionadas).

 

 Se precisar de recursos para garantir melhores oportunidades, esse mesmo pequeno empreendedor tem de pagar todos os tributos em dia (sem Certidão Negativa de Débitos Tributários (e agora até a Negativa de Débitos Trabalhistas), não consegue qualquer recurso governamental e, se ele inventar de ficar inadimplente por longo período, cairá na lista negra dos governos (em todas as esferas: federal, estadual, municipal), o que o impedirá até mesmo de abrir conta bancária para receber seu faturamento dos respectivos clientes (a regra não é assim, mas não faltam regras internas em alguns bancos, inclusive estatais, que jamais confirmam posteriormente, para que o empresário seja barrado por isso ou por aquilo, mas sempre sem dizerem a efetiva razão, já que os dados do Sis bacen estão abertos nos sistemas dos bancos, de qualquer pessoa e, onde é que qualquer pessoa têm acesso a isso? Só num lugar (Bacen) e tem de requerer com procuração pública se for o caso, mas o banco não, o banco acessa um sistema público que todos os brasileiros pagam). Diga-me esse sistema público é público ou é dos Bancos? Se só os bancos têm acesso imediato, então é publico só para estes, os cidadãos, em massa, não tem qualquer acesso público a suas próprias informações senão gastando muito tempo e dinheiro, idas e vindas, solas de sapatos, etc. e os bancos cada vez mais lucros...bem isso é outra história.

 

 Vejam a dificuldade de se falar da pior profissão do Brasil. Cada tema daria um livro e, certamente todos depõem contra essa figura tão importante da economia, esse batalhador incansável, esse anônimo, esse trabalhador de “sol a sol” que mesmo que pudesse aprender todo seu ofício num único curso de seis (ou mais) anos de duração, no dia seguinte ao sair da academia, estaria na mesma ao iniciar seu negócio.

 

 Digam-me qual regra, técnica, fundamento, modelo (ah, os modelos: kanban; Just in time; six sigma; itil; Ifrs, Iso, Cobit, BS, nos últimos 50 anos foram tantos e tantos que as (grandes) empresas gastaram milhões para fazer funcionar um só modelo e, acabaram usando todos e até hoje não sabem dizer qual o modelo que de fato é o que gerou (ou vêm gerando) seus resultados, etc.etc. que pode dar garantias de resultados positivos no lucro líquido das empresas? Apontem-me um só modelo que diga “se fizer isso o resultado aumentará tanto”....um só e, certamente não se precisará mais de faculdades, nem de consultores, nem de assessores, apenas usar o modelo...mas porque será que os modelos são tantos e sempre são renovados?

 

 Voltando novamente ao tema, nosso protagonista é, no Brasil, um obstinado, vencedor por si só, só pela iniciativa, pois além de tudo, tem sobre si a responsabilidade de empregar, sim,esta é, com certeza, se não bem administrada a segunda área de atuação do empresário mais complicada para ele gerar seus lucros e manter seu negócio.

 

 Tendo empregados, ele tem de se preocupar com o Cartão Eletrônico de Ponto (cada máquina não custa menos de R$ 3.000,00, sem contar custos de manutenção; obrigatório para empresas com mais de 10 empregados), vestiários, uniformes, vales transporte, alimentação do trabalhador; até 30% de previdência social sobre os salários; um mês de salário extra sem trabalhar (13º salário) beneficiando tanto o bom como o mau trabalhador; um terço (abono) de mês de férias em dinheiro, de forma indiscriminada, beneficiando tanto o bom como o mau trabalhador; as próprias férias (um mês remunerado); 8% de FGTS sobre o salário, que vira 12% já que há a multa de 50% no caso de demissão sem justa ca usa, a qual (justa causa) quando ocorre, é prontamente refutada na justiça do trabalho, que em 99,99% dos casos protege somente o empregado; há empresas que chegam a ter até 100% de encargos incidentes sobre o valor do salário base anualmente. Cabe, ainda ao empregador manter sua força de trabalho atualizada, pois que isso é fundamental para se manter a qualidade, portanto treinar é custo cotidiano; a motivação, outro, e assim por diante. E se o empregador, mesmo tendo tudo pago certinho ao empregado, não for um sujeito que tenha todos os dias um sorriso na face para apresentar ao empregado, poderá este, por simples cisma, entrar na justiça alegando um monte de bobagens contra o empresário, pois não faltam advogados espertalhões (dos sindicatos ou não) que assessoram os "menos favorecidos" empregados, porém, não menos esclarecidos nas Leis trabalhistas, nos seus direitos, restando ao pobre empresário ter de provar o contrário, pois é a ele que cabe a prova e não ao empregado, na justiça do trabalho.

 

 Bem, falei do segundo ponto mais importante que o empresário tem de dar atenção, mas não falei nada sobre o primeiro e, creio que não é nenhuma novidade, trata-se dos impostos. A carga tributária no país é tão pesada que, fora as exceções que têm uma carga tributária no sentido de regular o mercado e até mesmo inibir o consumo, que é o caso do fumo e da bebida alcoólica, por exemplo, que só para poder ter o valor que aplicou na compra de um bem que irá revender, o empresário tem de colocar sobre o preço de venda, por dentro, deste bem o percentual de até 45%, ou seja, algo que só pelo efeito tributário faz com que o preço de custo dobre representativamente sobre o preço de venda , faltando ainda considerar os demais custos e, bem como expressa o Professor Dr. Paulo Pinheiro (Unifin; Ufrgs), preço de venda não é calculado pelo custo, mas pelo que o cliente está disposto a pagar.

 

Não bastasse o extremo peso da carga tributária, as normas tributárias têm 50 alterações diárias nos últimos 20 anos; existem mais de 50 obrigações acessórias que o empresário tem de acompanhar mensalmente, variando a quantidade dependendo das atividades exploradas.

 

Em minha experiência profissional, já vi de tudo, empresário que nem se preocupa com os tributos, diz ele: isso é coisa pro Contador, eu tenho é de administrar o negócio e fazer dar lucro; também presenciei empresário tomando três garrafas de uísque por dia (“para poder dormir e se acalmar”), em cotidiano frenesi nervoso, por suspeitar a cada minuto de ser fiscalizado, por nunca ter declarado tributos e, a qualquer momento o fisco fechar seu negócio e colocá-lo na cadeia...também, é claro, vi e vejo aqueles mais afortunados, declarando e pagando tudo em dia, mas quase sem condições de continuar tocando seu pequeno negócio, mas, teimosos, estão ali, todos os dias, apesar de tudo. Conseguem, mesmo assim, sobreviver.

 

O fato é que empresários sonegadores, realmente merecem a pecha de serem perseguidos pelo Leão, e de fato devem ser fiscalizados, mas dizer que todos os empresários são sonegadores ou que, em princípio todo o empresário é um criminoso, só pelo fato de ter ele aberto um negócio aí é demais... penso bem o contrário e você?

 

Ih..., não falei nada de que ele tem de comprar, transformar e, vender o produto e, cuidar e controlar os recursos, controlar o estoque, controlar o saldo de caixa, ir no banco, pagar as contas, receber e cobrar de seus clientes, etc. Bem, mas isso é outra estória.

 

Empresário, afinal, é ou não um sofredor, é ou não a pior profissão para ser exercida no Brasil?

 

Autor: RUDILVAM DE SOUZA GOMES: é Contador, auditor independente, auditor Líder da Qualidade, membro da Comissão de Estudos de Auditoria Independente do CRCRS – Gestão 2010 e 2011.

 

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