Dolarização - Problema ou Solução? - Fabio Broder (*)

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 Dolarização - Problema ou Solução?
Fabio Broder (*)   
 
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Imagine-se na posição de um empresário ou executivo de uma gigante indústria que tem um quadro de muitos e muitos funcionários. A cada dia que passa avolumam-se os problemas com o pessoal. Ações trabalhistas, indenizações, falta dos funcionários, abandono de emprego, fraudes, etc. São tantos problemas e custos de mão de obra que parecem estar levando a empresa ao buraco.
De repente surge uma alternativa que parece ser o fim de todos esses tormentos: a terceirização total e completa dos recursos humanos. Passa-se a ter apenas uma variável, o custo da hora de trabalho, negociada com essa empresa terceirizadora; o resto fica por conta dela.
Esta é uma situação real vivida por muitos administradores, e a terceirização neste caso parece ser bastante coerente. Porém considere agora que este contrato de terceirização tenha um prazo obrigatório de 400 anos. E além disso, a partir do 3º ano de contrato, sua empresa não mais opina em relação ao custo da hora de trabalho, nem da quantidade de trabalhadores necessária.
Ficou esquisito, não?

Apesar de não ser exatamente isto, a dolarização de uma economia pode ser didaticamente comparada a uma terceirização da política monetária de um país, ou a terceirização de seu Banco Central e todas suas atribuições. Obviamente com vantagens e desvantagens.

Âncora Cambial
Muitas economias experimentaram, por longos períodos, o fenômeno da hiperinflação. Seu mecanismo de funcionamento, baseado na retroalimentação das expectativas é tão prejudicial a uma economia quanto difícil de se eliminar.
Uma fórmula bem sucedida no combate à hiperinflação foi a âncora cambial. Diversos países periféricos implementaram programas de estabilização, cuja essência, tratava-se de criar uma paridade fixa em relação ao dólar e com isso romper a correia da inércia inflacionária.
No Brasil a paridade foi criada e mantida, basicamente, às custas de juros internos altos e pela expectativa de que o Banco Central atuaria vendendo ou comprando dólares dentro de uma banda pré-definida.
Já na Argentina, como as Reservas Cambiais eram, proporcionalmente à base monetária do país, bem maiores do que as reservas brasileiras, foi possível manter a paridade garantindo livre conversibilidade da moeda argentina na famosa proporção de 1 para 1. Sendo, inclusive, aceito em lei, depósitos bancários e contratos denominados em dólares. O fato de possuir reservas altas, suficientes para converter qualquer quantidade de pesos em dólares, foi uma grande vantagem no princípio, a medida que conferiu credibilidade ao sistema de paridade e evitou a necessidade de juros internos altos. Porém este fato também contribuiu para que a moeda americana participasse efetivamente da economia argentina de forma jamais vista em outra economia, seja circulando fisicamente, seja através de contratos e preços.
Na Argentina, a âncora cambial teve tal profundidade que a colocou no meio do caminho de uma dolarização da economia.

Dolarizar soluciona ?
Em um momento de grave crise, como a que vive hoje a economia argentina, a solução de implementar uma dolarização efetiva pode parecer sedutora. Pois num primeiro momento traria benefícios como fim do processo de saques bancários que vem ocorrendo e que dificulta ainda mais o financiamento da dívida argentina. Em segundo lugar traria a redução do risco de uma maxi-desvalorização do peso, com efeitos devastadores em todos os passivos em dólar. Desde uma multinacional argentina que emitiu títulos no exterior como um simples cidadão argentino que comprou um carro financiado, todas as dívidas denominadas em dólar sofreriam. Além disso os juros praticados na Argentina tenderiam ao praticado nos EUA, o que hoje significaria uma provável queda de juros interna, sem perda de reservas internacionais.

Alto preço
Porém a dolarização, conforme exemplificamos, corresponde a terceirizar ao Federal Reserve toda gestão monetária da Argentina. Perde-se para sempre o poder sobre a moeda. Não haveria mais como administrar juros, base monetária, depósitos compulsórios, etc, sem a concordância do FED, assim como toda decisão do FED impactaria diretamente na economia argentina.
A determinação do nível de juros é uma das ferramentas que um banco central dispõe para tentar acelerar ou frear a atividade econômica. Como nem sempre os países estarão em fases coincidentes de crescimento econômico, isto poderia gerar discrepâncias enormes num futuro próximo.
Uma economia de pequeno porte, cujas transações comerciais internacionais estão concentradas com os EUA, teriam menores impactos em adotar a dolarização. Porém se o país aspira uma posição soberana e independente no cenário geopolítico, a dolarização enterraria para sempre a possibilidade daquele país ter uma postura divergente dos interesses econômico-políticos da Casa Branca.
No caso de uma dolarização argentina o projeto do Mercosul ficaria definitivamente ameaçado, pois a Argentina não teria outra alternativa a aderir a ALCA. Se, para o Brasil, o melhor seria a ALCA ou o Mercosul, isto é outra discussão, mas o fato é que nos afeta diretamente.

Concluindo, a adoção de um processo de dolarização, antes de qualquer efeito imediato, implica numa decisão de longuíssimo prazo, por ser praticamente irreversível. Impactará seguramente nas futuras gerações.

(*) Fabio Broder, administrador pela Fundação Getúlio Vargas
sócio da Broker Invest Asset Management
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(Você já leu? Chegou no dia 05/11/01)
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