Meu Sócio, Meu Amigo – Como Evitar Atritos Societários - Diálogo Impossível – 17/março/2014

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Categoria: E-book

DIÁLOGO IMPOSSÍVEL – DEBATE FRANCO ENTRE PAI E FILHO

SOBRE SUCESSÃO NA EMPRESA

 

Meu pai, diz o JÚNIOR: Preciso falar com você.

Meu filho, diz o PAI: Opa! Nas vezes anteriores, quando você se apresentou tão formalmente, vieram bombinhas. Espero que agora não seja bomba alguma.

 

JÚNIOR: Por que bombinhas? Não me recordo.

PAI: Memória fraca, não dá para lembrar seu pedido de viagem ao exterior, ainda garoto, ficando fora daqui, mais de ano, sem dar notícias; e o pedido era somente para uns três meses.

JÚNIOR: Puxa, remoendo o passado; mas já estou aqui. Certo?

PAI: Isso veio à minha cabeça, pelo formalismo seu ao pedir para me falar.

JÚNIOR: Você falou no plural : bombinhas. Tem outra?

PAI: Quem está pedindo é você; não vá se queixar depois. Você se recorda quando me pediu para fazer um curso de administração no exterior, já casado, justificando que um título de MBA (será esse o nome?) seria importante para um sócio da empresa? E que eu era meio contrário pelo seu passado, não muito ligado ao estudo? E o que aconteceu? Depois de um bruto investimento com passagens, casa para morar, inscrições, etc., etc.; ou seja, preparativos para passar dois anos fora, decorridos uns quatro meses você voltou, com a tralha toda, soltando cobras e lagartos do tal curso, achando que não valia a pena, os caras eram muito teóricos, sua mulher não se acostumou com a frieza dos gringos, e pronto; todas as despesas pelo ralo...

JÚNIOR: Você é terrível; sempre que pode pega no meu pé.

PAI: Mas, vamos lá, o que você quer falar comigo? O que te dói?

JÚNIOR: Na verdade, não é nada para mim. Estou é preocupado com você, com a mãe.

PAI: Sinceramente, obrigado.

JÚNIOR: Pois é; tenho conversado com amigos e todos acham que está na hora de você cuidar da sucessão na empresa.

PAI: Já sei, estão pensando que estou velho, incapaz...

JÚNIOR: Não é isso.

PAI:...pois é, acham que já não dou no couro. Pois diga aos seus amigos que até na cama ainda tenho vez.

JÚNIOR: Por favor, não é nada disso. Vamos falar como gente grande, por favor.

PAI: Está bem, esclareça melhor seu ponto de vista. Estou atento.

JÚNIOR: Quantos anos você vem batalhando pelo crescimento da empresa...

PAI: Junto com meu sócio.

JÚNIOR:...lógico. Você está com saúde e em pleno gozo de todo seu conhecimento, fazendo negócios, trazendo lucros para a empresa. Ora, será que não chegou a hora de planejar a aposentadoria, tratar dos netos, viajar, aproveitar a vida...

PAI: Estou entendendo; deixar a firma para meus herdeiros, apesar de me sentir ainda jovem e vibrante no trabalho. E quem me garante que meus sucessores irão tocar bem o negócio? Estou cansado de ver empresários, após terem transferido a empresa para os herdeiros, voltarem correndo para tomar conta de empresas concordatárias.

 

JÚNIOR: Se você está achando que eu não terei competência para tocar a empresa, por que não contratar algum executivo para vir me ajudar?

PAI: Você é quem está pedindo esclarecimentos. Não quero que se sinta ofendido com alguma frase ou palavra que eventualmente use.

JÚNIOR: Vá em frente, sem frescura; já estou acostumando com sua rudeza para comigo.

PAI: Calma; você pediu minha opinião e eu preciso ser claro, até para podermos nos entender. Se estivermos falando como amigos, precisamos de franqueza. Eu também ouvirei suas críticas, sem que precise pedir desculpas a toda hora.

JÚNIOR: Está certo. Continue.

PAI: Estava dizendo que tenho de me preocupar com o que temos. Aliás, pela ordem das coisas eu irei primeiro e tudo ficará para vocês...

JÚNIOR: Não apele, por favor.

PAI: Não é apelação. São coisas da vida. Eu preciso cuidar dos bens da família.

JÚNIOR: Aí está o começo de nossas preocupações tão diferentes. Já ouvi amigo meu falar de seu PAI: “ele quer manter a riqueza”. Só que eu quero criar a riqueza. Dá para entender?

PAI: Claro, não sou tão burro assim. E se a tal da minha riqueza for para o beleléu. O que farei? Será que terei tempo de constituí-la novamente? Daí a razão de ser precavido.

JÚNIOR: Mas, eu não falei que você irá deixar a empresa assim de pronto. Como você mesmo disse, ainda está bem vivinho, perspicaz nos negócios e atuante. Eu que o diga. A sucessão se faz paulatinamente, aos poucos. Você pode ir me passando as coisas pouco a pouco. Poderá contratar um consultor...

PAI: Deixa-me interromper um pouco, antes que me esqueça de certos detalhes. Você fez dois comentários: passar as coisas para você e utilizar um consultor. Primeiro, quero dar minha opinião sobre consultor – e que nenhum deles me escute, pois pode achar que é difamação -. Ele vem, fala, fala, diz que eu tenho de fazer isso, fazer aquilo, cobra a hora e se vai, deixando a gente com as providências a tomar...

JÚNIOR: Quando você quer, arrasa com tudo. Tem consultor e tem consultor. Um competente, que é o que estou prevendo, analisa, estuda o assunto, compara com outros casos já estudados, oferece sugestão e acompanha o desenrolar do ocorrido. Você não pode ser tão céptico assim, afinal a quase totalidade das empresas, de todos os portes, pelo menos uma vez, se assessorou com alguém. E estão aí.

PAI: Está bem, algumas vezes a gente exagera no exemplo. Não estou totalmente convicto, mas deixa prá lá. O segundo item parece ser uma queixa velada sua. É quando menciona que eu posso ir passando as coisas aos poucos. Talvez você não tenha percebido, mas isso venho fazendo há muito tempo.

JÚNIOR: Perdoe-me, mas não é verdade. Quantas vezes me sinto aqui como sendo um inútil, sem nada para executar. O que sinto é que você não me dá importância. Até minha mulher já reparou nisso...

PAI: Upa, isso é sério, trazendo a família à questão...

JÚNIOR: Atenção, ela jamais se queixou de você. Aliás, sempre diz para todo mundo que adora os sogros. Mas ela ouve, em todas nossas reuniões, você dizer que fez isto, fez aquilo. Aí ela me pergunta: “e você nada faz?

PAI: Nossa conversa toma tantos contornos que a gente pode se perder na análise do ponto principal. Todos nós temos mulher, filhos, parentes, sempre dando palpites, até mesmo com a maior boa vontade. Mas, eles são piores do que consultores, já que nem a empresa, seus meandros, suas dificuldades conhecem. Em outra oportunidade, se você quiser, poderemos debater esse assunto tétrico “família” e seus palpites.

JÚNIOR: Ok! Estávamos no ponto em que eu demons-
trava não me sentir útil na empresa, por falta de tarefas mais importantes.

PAI: Vamos lá. Veja bem, vou dar explicações, tente me entender e não extrapolar para outras ideias estapafúrdias. Tempos atrás pedi para você me substituir no nosso Sindicato, transferindo-lhe todos meus contatos e meu prestígio que, graças a Deus, não era pouco...

JÚNIOR: E eu fui...

PAI: Está certo, foi. E o que ocorreu? Ausências freqüentes às reuniões...

JÚNIOR: Com o perdão da palavra, todos uma cambada de velhos, uma conversa mole...

PAI: Para tanto, você, como jovem, poderia pôr fogo na casa, trazer a debate matéria de interesse de nossa categoria. Até para justificar minha substituição. Os outros poderiam tomar a mesma iniciativa, dando novo impulso à entidade. Mais ainda, assuntar para ver o que nossos concorrentes estão bolando em relação a novas técnicas, novos produtos ou, melhor, o que estão criando de novidade. Você quer jeito mais fácil de fazer uma pesquisa?

JÚNIOR: Não pensei nisso...

PAI: Mais ainda, várias vezes clientes nossos o procuraram e, para não substituí-lo, pedi para lhe avisarem no Sindicato. E você não estava lá.

JÚNIOR: Então é fiscalização do meu horário. Eu não podia faltar, vez ou outra?

PAI: Oh, meu caro, não é isso. E como fica o cliente, sem atendimento. Você mesmo, em várias oportunidades, quando retornava dos seus cursos e seminários, nestes últimos anos, me trazia o ensinamento dos gurus, afirmando que o que vale agora não é o produto, é o consumidor, é o cliente. Ora, cliente não atendido, não sei não se irá gostar.

JÚNIOR: Acho isso gozação.

PAI: Bem, talvez estejamos nos desviando um pouco do assunto inicial: tratar da minha sucessão, apesar de me sentir com saúde.

JÚNIOR: Até chegar a uma UTI, que é o que, por Deus, não desejo.

PAI: Tenho certeza, não se preocupe. Deixe-me explicar o que imagino da tal sucessão. Em primeiro lugar, preciso ouvir meu sócio. Saber o que cogita sobre o assunto. Desejará ter meus filhos como seus parceiros? Embora minoritário, devo tal satisfação a ele. E isso, meu caro, já estou fazendo, mas as coisas não são fáceis, ainda que ele seja pessoa boníssima e de grande ética. É necessário um tempo para reflexão. Mais, ainda, qual a posição de sua mãe e irmã a respeito. Pois saiba que sua irmã, numa boa, já me perguntou se na empresa haverá um lugar para o marido. E nada respondi, ainda. Você conhece seu cunhado; pessoa de boa estirpe, bom administrador, com elogios recebidos em todas as empresas, algumas grandes, pelas quais passou. Talvez nem esteja cogitando em vir trabalhar conosco. Mas sua irmã, com toda razão, tem o direito de imaginar como cuidar da parcela que lhe caberá.

 

JÚNIOR: Não resta dúvida. Também acho que ela está certa. Aliás, você sabe o bem que quero a ela e, também, ao seu marido, amigão de todas as horas.

PAI: Folgo que você pense dessa forma e tinha a certeza de que não seria outra a sua atitude. Mas, como será o entrelaçamento de interesses, caso venha prestar seus serviços aqui dentro? Certamente virá com sua formação profissional, até mesmo para buscar resultados, que talvez sejam, para nós todos, inesperados.

 

JÚNIOR: É, a coisa parece complicada.

PAI: Por outro lado, terá você examinado como separar duas formas de retribuição da empresa?

 

JÚNIOR: Como assim?

PAI: Ora, uma coisa é o trabalho, outra é a participação nos resultados. O trabalho dá ensejo ao pró-labore. Não sou versado em latim, mas acho que quer se referir ao pagamento pela realização de um trabalho. Já o recebimento dos dividendos decorre da participação no capital social. Idem, em relação aos prejuízos, lógico.

 

JÚNIOR: Está claro, isso eu acompanho bem.

PAI: Ótimo. Agora, suponha que seu cunhado venha trabalhar aqui e a remuneração paga pelo mercado ao seu tipo de serviço seja superior ao nosso pró-labore. Como resolver isso?

JÚNIOR: Sim, mas ele terá de refletir que está atuando como sócio.

PAI: Não resta dúvida. Mas qual será o percentual dele? Quantos anos terá de aguardar para ocorrer uma igualdade de quotas que compense eventual pró-labore reduzido?

JÚNIOR: Está certo. A coisa não é tão fácil.

PAI:Você e seus amigos de fora...

JÚNIOR: É...PAI: De qualquer forma eu o parabenizo por trazer à baila este assunto. Não obstante ser complicado, deve ser atacado, examinado. Embora não pareça, estou me preparando e, o que é significativo, assessorado por um consultor.

 

JÚNIOR: Ótimo. Agradeço seus esclarecimentos.

 

PAI: Ótimo para você. Procure pensar no que falei, a fim de me ajudar na empreitada de planejar, não simplesmente uma boa sucessão mas, sim, a melhor sucessão familiar. Aquela que traga prosperidade contínua para a empresa e felicidade pessoal para seus participantes.

 

Observação do Autor: Qualquer semelhança, total ou parcial, com seu caso pessoal, é mera coincidência.

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Trecho extraído do livro MEU SÓCIO, MEU AMIGO – COMO EVITAR ATRITOS SOCIETÁRIOS – de Nívio Terra – edição de 2000 esgotada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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