CRÔNICA DA VIDA MODERNA - O Fechamento

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Categoria: Dicas e Fatos

Nívio Terra (*)

           Tudo indicava que aquele fechamento seria tranqüilo, sereno. Para os que não estão acostumados com tal vocábulo, fechamento (no ramo imobiliário) é o momento glorioso em que vendedores e compradores, final e prazerosamente, assinam o contrato de venda e compra do imóvel negociado.

            Aquela transação estava praticamente encerrada. Longos debates entre o vendedor Ahmed e a Construtora, acompanhados do diligente corretor, secundadas, cada parte, de seus atentos advogados, eram coisas do passado, felizmente.

            Enquanto ocorriam os debates, dona Suzan, esposa do vendedor, padecia de suas dúvidas. Tanto que numa conversa informal com a mãe, sua confidente e única pessoa com quem confabulava assuntos mais íntimos, contara a apreensão em perder o único bem que também estava em seu nome. E daí para frente, o que poderia ocorrer? 

            A mãe apenas a aconselhava debater isso com o marido. Mas, dona Suzan sempre se mostrara totalmente dele dependente e submissa aos seus desejos e vontades. E as negociações andariam, com ou sem a sua aprovação. Tinha a convicção de que não seria sequer ouvida e poderia até receber uma reprimenda, sob alegação de que nada entendia de negócios.

            Dona Suzan preferia sofrer, calada, as suas aflições. Talvez o bom Deus  pudesse iluminá-la quando necessário.

            Agora, fechado o negócio, chegara a hora da coleta das assinaturas nas diversas vias do contrato. Presentes, o vendedor Ahmed e sua digníssima esposa Suzan, o representante da Construtora, todo sorriso, o corretor, aguardando sua justa comissão, mais os advogados, cientes do dever cumprido. Contratos sobre a mesa, cheque aguardando a vez de ser embolsado pelo vendedor Ahmed, o Diretor da Construtora com a caneta na mão, ávido em terminar a sessão, já que outros afazeres o esperavam, e eis que o senhor Corretor, diligentemente, solicita que o cheque apresentado fosse desdobrado, a fim de ser emitido um outro em seu favor, correspondente à sua legítima comissão.

            Silêncio na sala; um ou dois segundos que pareceram horas.

            Surge a voz do sr. Ahmed: "não concordo,  já que estava combinado que o valor da venda era SEM DESPESAS". Além disso, aproveitava ele para “solicitar que a Construtora, também no ato, apresentasse o cheque do seu operoso advogado!”.

“Não é Suzan?", dirigindo-se à esposa, que parecia não estar atenta à sessão.

            Rebuliço na sala. A explosão de uma granada talvez não fizesse o mesmo estrago. A Construtora via o negócio se tornar inviável economicamente; o corretor não teria como receber sua retribuição, os advogados, que já haviam guardado seus papéis nas pastas reluzentes, trocavam olhares interrogativos.  Mais alguns segundos, tornados horas!
Lógico que cabia ao hábil dirigente da empresa a primeira palavra:

            "Mas, tudo já ficara ajustado através do senhor corretor".

O pânico na sala continuava; somente dona Suzan, com seu semblante tranquilo, não

se amofinava. Todo cabisbaixo, o corretor gaguejou algumas palavras, ponderando ao sr. Ahmed que as condições anotadas no contrato eram as já aprovadas por ele.

            "Sim, o preço e condições de pagamento estão certos; sou homem de bem e não volto atrás. Não é Suzan?", retrucou Ahmed. Dona Suzan não estava nem aí.

            Debates se seguiram durante horas, pequenas ofensas foram trocadas, mas sempre com educação, propostas, contrapropostas, levantadas da mesa com sobre-passos para a porta de saída, mas sempre com alguém "deixando prá lá". Coisa de novela em 120 capítulos. Mas as pessoas são, em seu íntimo, nobres e transigentes (ainda mais com o negócio final tão próximo) e chegaram a um acordo: o corretor reduziu o valor da sua comissão, a construtora fez o sacrifício de pagá-lo e o sr. Ahmed, sempre ouvindo sua silente esposa Suzan, concordou em acertar os honorários de seu prestativo e eficiente advogado (estava certo que obteria um descontinho, para não fazer feio com seus ancestrais).

            Tudo arreglado; adendos feitos, iniciou-se a coleta das assinaturas: construtora, testemunhas, sr. Ahmed.

            Apresentadas as vias à dona Suzan; poucos, pouquíssimos segundos, mas parecendo longa espera, canetas a ela oferecidas, talvez fosse isso o faltante. Eis que surge voz feminina na sala, pausada e firme, com palavras soadas uniformemente; era dona Suzan quem as proferira:

            "Quero a metade do valor do imóvel em cheque em meu nome; se eu não receber agora, meu marido não me dará nada!"

            Poderia ocorrer um momento de maior expectativa? Sorrateiramente, o diretor da Construtora se retirou da sala, dirigiu-se à outra anexa levando o primitivo cheque, que já fora sacado pela segunda vez, voltando rapidamente com outros dois, desta vez emitidos à tinta, sem mais aquela marca carbonada no verso, entregou à dona Suzan o que lhe era nominal, coletando, rápido, sua assinatura no contrato; o outro foi passado ao sr. Ahmed, que estava meio aparvalhado. Todos se alevantaram rápidos, quase como em pecado, retirando-se com a presteza que o momento merecia.

            No dia seguinte, a seção policial dos jornais da praça nada noticiou com os nomes de Ahmed e Suzan. Graças a Deus.                                                                      

 

(Nívio Terra – texto original 2.000)

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