AOS 81 ANOS, BEATRIZ DISSE: DEIXEM COMIGO! Ignácio Loyola Brandão (*)

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Categoria: Dicas e Fatos


 

Nota do Portal do Sócio e da Sociedade:

A publicação desta Crônica tem a finalidade

de agradecer ao emérito Escritor por enaltecer

o trabalho e a experiência do idoso.

 

Dia desses, uma amiga do interior me ligou, queria me passar umas informações. Eu disse: "Vou te dar meu e-mail, você passa tudo". E ela: "Acha que sei trabalhar com isso? Sabe quantos anos tenho? Sou de outra geração. Não temos nada a ver com essas coisas". Sei quantos anos ela tem: 73. Porque três anos atrás o marido fez uma bela festa para os 70 anos dela. Lembrei-me que meu tio José ficou fascinado com o computador que ganhou dos filhos. E ainda não havia mouse, imaginem, era tudo controlado pelo teclado. E José estava com quase 8o.

Acho que minha amiga não sabe que a vida começa aos 6o. Quando jovem, lembro-me de um best-seller chamado A Vida Começa aos 40. Agora já avançamos. Aos 73 ter medo do teclado de um computador é inquietante. É estar desistindo. Desistindo cedo demais. Outro dia falei de toda essa tecnologia que nos assombra. Porém, um computador não assombra mais. Faz parte de nossas vidas, assim como o chuveiro elétrico.

Semana passada, fiquei feliz ao ler a notícia. As coisas estão mudando mesmo, ainda que sejam pontuais, aqui e ali. Pois não é que Beatriz Camargo Pimenta foi eleita presidente do Masp aos 81 anos? Olhem as fotos nos jornais. Inteira, rosto esfuziante, disposta a tocar um barco que nas últimas décadas ameaçou naufragar nas mãos de gente mais nova. O Museu é uma das mais importantes entidades deste Brasil, pelo acervo e pelos eventos que realiza. Pois está aí uma mulher que assume o risco sem medo, ela conhece arte, é colecionadora, tem tutano. Suas declarações são otimistas, de quem aceita o desafio. Longa vida para Beatriz. E para o Masp!

Nessa história de idade, fiquei impressionado quando, há duas semanas, li o livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de 'Psicose', de Stephen Rebello, que revela um episódio significativo. O livro é a base do filme que já está em cartaz, com Anthony Hopkins no papel do "mestre do suspense". Nele vemos um momento crucial na vida de um homem de imenso talento.

 Aos 6o anos, depois de fazer 44 filmes, alguns de enorme sucesso, e apontado como um dos gênios do cinema, Hitchcock foi considerado "velho" pelos chefões da Paramount, que lhe negaram dinheiro para o projeto do filme Psicose. Não deixaram inclusive de chamá-lo de caduco

e acabado. Hitch lutou contra o sistema, brigou com bancos, enfrentou críticas de executivos, penhorou sua casa e fez o filme, transformado em um dos maiores sucessos americanos da década de 6o. Uma obra hoje clássica que foi baratíssima para os padrões hollywoodianos, 900 e poucos mil dólares.

 

Foi um tapa na cara dos chefões do estúdio e, igualmente, um tapa na cara de todos os que achavam (e ainda acham) que a velhice é sinónimo de invalidez, fim de linha, incapacidade de trabalho ou de criatividade. Todos os técnicos, muito mais jovens, se assombraram com o olho de Hitch, que sabia a duração exata de uma cena, de um fotograma de filme. Que sabia exatamente o que queria e como chegar lá. Não foi à toa que os jovens da nouvelle vague francesa o endeusaram. Era um "velho" que sabia demais.

Sei, as coisas têm mudado, porém lentamente. Os juízes do Supremo Tribunal Federal não são obrigados a se aposentar aos 70 anos, no auge da experiência, da capacidade mental, do conhecimento? Na maioria das empresas, os 62 anos não são comemorados com a demissão do sujeito? Semana passada, dei com um amigo que acaba de sair de uma grande instituição, porque passou dos 6o. Meses depois, voltou como consultor, e com uma belo cachê, porque as gerações intermediárias não estavam dando conta do recado. Esperem! Não quero dizer que a nova geração é incompetente; nada disso; é que a mescla da experiência com o ímpeto da juvcntude pode resultar em momentos agradáveis e eficientes.

 Meu avô paterno trabalhou até os 90 como marceneiro. Meu pai foi diariamente à sua fábrica de sacos de papel (aposentado como ferroviário, ele abriu uma pequena empresa, deu certo) até os 8o e poucos anos. Só saiu por divergências com um sócio. O doutor Jatene fez transplantes até que idade? Niemeyer, dona Cano, Krajcberg, Vanzolini, quantos mais podemos citar? E Inezita Barroso, domingo passado, não conduziu seu programa de telvisão aos 88 anos? Só para citar alguns. Os velhos talvez não tenham tanta força. Mas aprendemos a fazer tudo, sentados na cadeira, na poltrona, rede, o que for. Como esses jogadores experientes que jogam na sombra.

P.S.: A propósito, no YouTube circula um vídeo de Ginger Rogers aos 92 anos dançando salsa com o neto. E no livro Em Casa, Breve Historia da Vida Doméstica, Bill Bryson comenta a certa altura que o arquiteto John Nash, na avançada idade de 46 anos, voltou a Londres...

(*) Ignácio Loyola Brandão. Escritor e Cronista. Texto publicado no jornal O Estado de São Paulo, Caderno 2 – pg. D12 – em 8 de março de 2013

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